Marillion: “Gaza”

Título: Gaza (17’25”)
Artista: Marillion
Álbum: Sounds That Can’t Be Made (Eagle Records, 2012)
Autores: (Música) Steve Hogarth, Mark Kelly, Ian Mosley, Steve Rothery, Pete Trewavas. (Letra) Steve Hogarth

Em 1985 a banda inglesa Marillion surpreendia o mundo com o álbum conceptual “Misplaced Childhood”, reminiscente do rock progressivo dos anos 70, popularizado por bandas como Genesis, Yes ou Pink Floyd. Encabeçando desde então o renascimento de um género, os Marillion contam hoje com 16 álbuns de originais, onde, de um rock mais dinâmico, evoluíram para melodias mais espaçosas e insinuantes. Com uma riqueza de arranjos feita da sobreposição de muitas camadas, os Marillion criam atmosferas que unem lirismo, melancolia e energia, muito graças às paisagens criadas pelo teclista Mark Kelly, os lânguidos solos do guitarrista Steve Rothery, e as interpretações emotivas do vocalista Steve Hogarth.
 
Sendo os Marillion a minha banda preferida, desde 1985, seria normal que começasse por ela este blog. Mas mais que olhar para esse passado, os Marillion revelam-se como uma banda que reinventa o seu presente ano após ano. Daí que a minha primeira escolha recaia sobre “Gaza”, o tema de abertura do álbum “Sounds That Can’t Be Made” de 2012.
 
“Gaza” aborda um tópico polémico, o conflito israelo-palestiniano na faixa de Gaza. o tema foi editado com uma precisão quase premonitória, uma vez que o álbum é de Setembro, e em Novembro os conflitos escalaram de forma a tornarem o assunto de novo prioritário nos noticiários. Mesmo entre os fãs se tem discutido a legitimidade de se cantar um tema tão delicado. A letra de Steve Hogarth aborda o dia a dia do conflito visto pelos olhos de uma criança palestiniana que cresce pobre, no meio de ódio, violência e dor que não compreende. Supostamente construída a partir de relatos de habitantes de Gaza, a letra, embora focando um dos lados, faz um apelo à paz e à denúncia da guerra, lamentando os mártires de ambos os lados. A mensagem humanitária tem sido constante na obra dos Marillion, embora poucas vezes tenha sido abordada de forma tão frontal um assunto tão presente.
 
Musicalmente Gaza é uma quase novidade no percurso dos Marillion, trazendo-nos um lado bem mais agressivo, que ilustra o caos, destruição e desespero que a letra evoca. Essa agressividade é intercalada com andamentos de uma melodia delicada que nos lembra a fragilidade humana.
 
Tentando separar o tema em vários andamentos, ele inicia-se num crescendo introdutório ao primeiro andamento (“when I was young”) que começa sobre uma base de música oriental. O passo acelera-se, os temas evoluem até à explosão violenta de guitarras dissonantes. Como um ciclo estas passagens repetem-se várias vezes e, ao fim de 5 minutos, como uma ponte (“you ask for trouble”), a voz quase chorada de Steve Hogarth traz-nos uma reflexão sofrida sobre notas quase etéreas. Segue-se um segundo andamento, de ritmo marcial (“for thirtheen years”). Em jeito de diário, Hogarth declama sobre novas guitarras ácidas e fanfarras de trompetes sintetizadas num tom operático floydiano. Uma pausa abrupta devolve-nos as melodias de sabor oriental, e um terceiro andamento insinua-se murmurante a início (“stay close”), evoluíndo para um falseto sobre riffs de guitarra que nos conduzem a um completo sinfonismo. A seguir a mais um corte súbito, voz, guitarra e piano iniciam o quarto andamento em jeito intimista (“nothing’s ever simple”). Ele é quase uma conclusão sobre o assunto abordado, terminando num típico solo épico de guitarra de Steve Rothery, sobre a apoteose vocal de Hogarth “it just ain’t right”, talvez o ponto mais alto de toda a faixa. O epílogo acontece após mais de 14 minutos, quando Hogarth, numa sobreposição de vozes, canta “it’s like a nightmare”, enquanto a guitarra uivante vai ascendendo em espiral num crescendo constante que atrai toda a banda para o sinfonismo rock que a define.

Marillion em 2009

Marillion em 2009: Mark Kelly, Ian Mosley, Steve Hogarth, Steve Rothery e Pete Trewavas

“Gaza” termina, e parece curto. Tantos são os estados de espírito abordados, as emoções sentidas, e as camadas de música que estão para além do imediato, que não resta alternativa. Há que ouvir de novo, e apreender detalhe a detalhe… as vezes que for necessário.

Dedicado a todos os membros da Web Portugal: www.thewebportugal.com

 

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6 responses to “Marillion: “Gaza”

  1. Antes de mais nada, muitos parabéns pelo blog. Uma grande ideia agora concretizada. Foi assim que ouvi Gaza. E quem ler as tuas palavras vai querer descobrir esta obra de arte dos Marillion. Ah, e obrigado pela desicatória. Continua, Zé! Queremos mais!

  2. J. Carlos.
    Não sei como vocês conseguem tempo para tanta dedicação. Acho que só pode ser o gostar…
    Quando ouvi Gaza pela primeira vez, os sons da primeira parte da música, me incomodaram um pouco. Até então não havia prestado atenção a letra… aí então descobri o por quê. Não há como pintar um quadro desses usando tintas suaves. Mas a segunda parte da canção me cativou logo de cara, acho que por cantar a esperança.
    Obrigado!
    P.S.: alguma coisa me faz crer que musicalmente pode existir um paralelo entre essa canção e “The Gates of Delirium” do Yes. Estarei deliriumrando?

    • “The Gates of Delirium” há-de fazer parte deste blog. Sempre dei um certo desconto às letras de Jon Anderson, pois ele próprio diz que não se lembra porque razão escrevia aquelas coisas nos anos 70, nem o que tomava quando escrevia. Mas quem sabe…

  3. Olá, gostei muito do primeiro texto do teu blog. Espero que seja um sucesso, principalmente para ti.
    Sobre o tema em si, fico à espera de temas mais pacíficos para poder opinar sem correr o risco de te estragar o blog :p
    Bons textos 🙂

    • Obrigado Vasco. Mais que concordarmos ou discordarmos sobre o “gosto” por uma música, interessa-me aqui tentar dar motivos para que as pessoas as ouçam, e quem sabe, ajudar nessa audição apontando para pormenores significativos. Pode ser que pelo caminho eu próprio aprenda alguma coisa. 🙂

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