Genesis: “Supper’s Ready”

Título: Supper’s Ready (22’57”)
Artista: Genesis
Álbum: Foxtrot (Charisma, 1972)
Autores: Tony Banks, Phil Collins, Peter Gabriel, Steve Hackett, Mike Rutherford

Em 1972 os Genesis não eram ainda a super banda em que se viriam a tornar nos anos seguintes. Com três álbuns já editados, começavam a dar nas vistas pela estranheza das suas composições e teatralidade das interpretações ao vivo, principalmente em núcleos de estudantes, e particularmente fora da sua Inglaterra natal. Foi nesse contexto que foi editado o quarto longa duração da banda, “Foxtrot”, que lhes valeria uma maior atenção da crítica. Editado um ano após “Nursery Cryme”, “Foxtrot” foi segundo longa duração da chamada formação clássica da banda: Peter Gabriel (voz e flauta), Tony Banks (teclados e guitarra clássica), Mike Rutherford (baixo e guitarras), Phil Collins (bateria) e Steve Hackett (guitarra).
 
Para muitos “Foxtrot” foi o definitivo salto em frente, o mais fundamental dos álbuns da banda, e mais simplesmente: o álbum que contém “Supper’s Ready”. Precedido do curto instrumental “Horizons” (uma variação de Hackett para guitarra acústica sobre um tema de Bach), “Supper’s Ready” completava o segundo lado do LP, tendo-se tornado um dos mais influentes temas da história do rock progressivo, e quase que a fasquia a bater por todas as bandas do género.
 
Segundo Peter Gabriel, que escreveu a totalidade da letra, “Supper’s Ready” é uma viagem de contornos bíblicos que nos conta a luta eterna entre o bem e o mal. Terá sido inspirado por uma presença sentida pela sua namorada Jill, num serão em que contavam com a companhia do produtor John Anthony, e ainda hoje não conseguem explicar. O tema encontra-se subdividido em sete partes, e de seguida analisa-se cada uma individualmente.
 
I. “Lover’s Leap”: Tudo começa com uma balada doce, feita de arpejos de três guitarras acústicas (Banks, Hackett e Rutherford) e vozes dobradas, a que se junta um tema de piano, harmonias vocais e flauta, numa evolução do tema inicial, de contornos folk. A letra fala de um regresso a casa com imagens sobrenaturais. A imagem da mulher que não é mais ela própria e dos “six saintly shrouded men” (seis homens santos envoltos em mantos) transportando cruzes, terão sido experiências da famosa noite surreal.
 
II. “The Guaranteed Eternal Sanctuary Man”: Um novo tema (“I know a farmer”) introduz a segunda parte, dominada por acordes de órgão e percussão. Esta parte, das mais antigas de toda a faixa, foi composta por Banks na universidade em 1970. Este é um tema ligeiro, conduzido por Gabriel, e que termina com a repetição da parte I, agora em flauta. Nesta secção os dois amantes são colocados perante duas forças, um agricultor, representando a simplicidade da natureza, e o “Guaranteed Eternal Santuary Man”, líder religioso, que une ciência e religião, vendendo falsas verdades.
 
III. “Ikhnaton and Itsacon and Their Band of Merry Men”: Uma quebra abrupta dá-nos a ouvir em fundo uma lengalenga cantada por crianças, a que se junta, como ponte, a repetição do tema principal da parte I, agora em flauta e guitarra acústica. Começa então a parte III (“wearing feelings on our faces”), bem mais dinâmica com Gabriel em pose rock and roll, um forte acompanhamento de bateria e guitarra, pontuados por frases de órgão. Tudo isto evolui para um solo de Steve Hackett, que como seria habitual nos Genesis é depois duplicado pelos sintetizadores, num dueto Hackett-Banks. Uma segunda parte repete o tema cantado de Gabriel, terminando com notas sentidas da guitarra e um diminuendo. A letra fala-nos de uma batalha simbólica que figuras míticas, saídas das entranhas da Terra, travam por motivos religiosos.
 
IV. “How Dare I Be So Beautiful?: Como secção intermédia, a parte IV (“wandering in the chaos”) inicia-se com discretos acordes, e Gabriel a cantar languidamente, quase em sussurro. É uma pausa para respirar, e a letra fala resultado devastador da batalha anteriormente descrita. O título é ao mesmo tempo uma piada ao primeiro empresário da banda, Jonathan King, e uma referência ao mito de Narciso, que se transforma numa flor, conduzindo à parte seguinte.
 
V. “Willow Farm”: Esta é a parte mais facilmente reconhecível das actuações ao vivo, já que após o grito “a flower?” Peter Gabriel surgia com um fato que o transformava numa flor gigante. A música é aqui alegre, quase como num musical cómico, de acordes saltitantes de órgão, bateria simples e um jogo de vozes (Gabriel e Collins), por vezes distorcidas, em tom cómico. Um segundo tema (“feel your body melt”), traz um ritmo mais intenso, conduzido por acordes de piano, a que se segue o regresso ao tema anterior (“and as you listen to my voice”). A letra é um completo nonsense britânico com complexos jogos de palavras, e piadas a conhecidas figuras, como Winston Churchill. Os amantes terão deixado o campo de batalha e passado a uma existência completamente diferente, cheia de estranhas cores, animais e pessoas. “Willow Farm” foi outra das faixas anteriores a 1972, que esteve para ser editada em separado.
 
Segue-se mais uma ponte, esta mais longa, iniciada como um longo lamento dos teclados de Tony Banks, que desemboca num emotivo tema de flauta, suave e pastoral. Aos poucos a guitarra acústica, sob um crescente rufar de percussão, vai-se-lhe juntando, dando uma aura clássica.
 
VI. “Apocalypse in 9/8 (Co-Starring the Delicious Talents of Gabble Ratchet)”: Perto dos 15 minutos e meio, a voz de Gabriel sobrepõe-se cantando “with the guards of Magog”. A tensão cresce e entramos na parte VI, que contem a secção instrumental em 9/8 que continua a ser imitada por tantas bandas. Desde logo neste ritmo, de certo modo assustador e tenso, marcado pela bateria de Collins e o baixo de Rutherford, o tema é inicialmente cantado. Aos 16:20 a voz é substituída por Banks em órgão, que se vai recriando sobre aquela base rítmica, durante vários minutos, ele próprio variando ritmos e compassos, naquilo que se tornaria um dos momentos mais originais (e admirados) da carreira dos Genesis. A secção torna-se mais apoteótica para o final com a variação de timbre a reintroduzir a voz de Gabriel (“666 is no longer alone”) que, ainda sobre o mesmo ritmo, e secundado pelo mellotron, conduz o tema à fanfarra final. Liricamente, os amantes transformaram-se em sementes no solo e, juntamente com outras sementes, que são pessoas do seu mundo anterior, assistem ao Apocalipse de S. João, e ao recriar do mundo, por entre mais algumas passagens de absurdo.
 
VII. “As Sure As Eggs Is Eggs (Aching Men’s Feet)”: Depois de uma breve frase de flauta, sinos celebram o início da última parte. Gabriel canta “and it’s… hey babe” que melodica e liricamente é o retorno ao refrão do tema I. Com toda a banda em sinfonismo o tema (“can’t you feel our souls ignite”) repete a parte II (“guaranteed eternal sanctuary man”). Gabriel canta, enquanto aos poucos a guitarra de Hackett vai sobressaíndo com as suas habituais notas longas e atmosféricas. Gabriel termina em apoteose, e um solo de guitarra conduz o tema até ao fade out final, numa espécie de regresso a casa depois da viagem. A letra mostra-nos o triunfo do bem sobre o mal como um renascimento na Nova Jerusalém, lugar de paz, revelação e morte do anticristo. A referência ao Livro da Revelação, indica a passagem que fala da grande ceia de Deus, que no fundo dá título à faixa. O título desta parte é uma tautologia, e o subtítulo um trocadilho com a expressão “making ends meet”.

Genesis em 1972

Genesis em 1972: Steve Hackett, Peter Gabriel, Mike Rutherford, Phil Collins e Tony Banks

Mais que a soma das partes, “Supper’s Ready”, vale pelo modo com os diferentes temas se interpenetram e completam, com arranjos imprevisíveis que nos surpreendem audição após audição. A divisão em diferentes andamentos faz-nos lembrar a música clássica. E a diversidade de soluções instrumentais é como que um desafio que cada músico impôs a si próprio. O uso da repetição de determinadas melodias para ilustrar diversos temas (como um leitmotiv Wagneriano), dá-lhe uma qualidade operática, que em palco era ilustrada também nas diversas caracterizações de Peter Gabriel. Liricamente o tema surpreende pelo apelo a um imaginário subsconsciente que ainda hoje continua a fascinar os ouvintes. A letra enigmática gera mútiplas interpretações, e é analisada até da perspectiva psicológica. Vale a pena ouvir mais e mais uma vez. Os quase 23 minutos passam bem depressa.

Dedicado ao meu “mentor” musical, Afonso Azevedo Gomes.

Para uma outra análise do tema, consultar: www.genesis-midi.com

 

3 responses to “Genesis: “Supper’s Ready”

  1. EXCELENTE NARRAÇÃO.
    PARABÉNS PELA INICIATIVA.NÃO HÁ FALTA DE MATÉRIA PARA TRABALHAR.

    UM ABRAÇO

  2. Qual o significado da letra realmente? Que mensagem eles tentaram transmitir?? Analisando cada parte dela, como brilhantemente vc fez JC, ainda assim restam mais perguntas e suposições do que respotas ou algo claro e específico. Existem matérias em inglês sobre Supper’s Ready?? Com integrantes (Grabriel principalmente), esclarecendo do que realmente a música trata liricamente falando? Abraço

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