Spock’s Beard: “The Light”

Título: The Light (15’26”)
Artista: Spock’s Beard
Álbum: The Light (Metal Blade, 1995)
Autores: Neal Morse (com Alan Morse em “One Man”)

Em 1995 os Spock’s Beard surgiam repentinamente, sem se saber de onde, já como uma banda “clássica” da chamada terceira vaga (a vaga da internet) da música progressiva. Embora estreando-se em disco, a banda era composta por músicos experientes, há muito habituados à estrada, mas que só então decidiam deixar de acompanhar outros, para fazer aquilo que sonhavam, ter uma banda sua que tocasse música diferente.
 
Centrados nos irmãos Alan Morse (guitarra) e Neal Morse (voz, teclados e guitarra), os Spock’s Beard (com nome inspirado no episódio “Mirror, Mirror” da célebre série “O Caminho das Estrelas”), contavam ainda com Nick D’Virgilio (bateria e voz) e Dave Meros (baixo). Mais tarde, ao vivo, juntar-se-ia o quinto elemento, o teclista Ryo Okumoto, que não participou na gravação do álbum.
 
De um momento para o outro, os Spock’s Beard conseguiram surpreender e de certo modo unir a comunidade prog. Eram admirados por um tão forte álbum de estreia, e tornavam-se os arautos de um sinfonismo clássico, que parecia ter saltado por cima da experiência do neoprog dos anos 80, indo beber directamente às fontes: Yes, Genesis e Gentle Giant. Como os seus ídolos, os Spock’s Beard, pela batuta de Neal Morse, o seu líder incontestado durante seis álbuns, conseguiam aliar as mais cativantes e cantáveis melodias, aos movimentos mais arrojados e complexos, num misto de simplicidade e virtuosismo. Exemplo dessa versatilidade é o tema de abertura do álbum de estreia: “The Light”.
 
“The Light conta-nos como vale a pena sonhar, e ter fé na humanidade, afinal o mote que servia para lançar a banda. Encontra-se, dividido em oito partes, que serão descritas de seguida. Na verdade elas são na maioria constituídas pela repetição de alguns temas a que chamarei “The dream”, “One man”, “Garden people”, os quais surgem com diferentes roupagens, e separados por um intrincado conjunto de pontes instrumentais.
 
I. “The Dream”: The Dream funciona como uma introdução, questionando o papel dos sonhos, e dando o mote à canção. É composto por duas secções, a primeira, em tom de balada com Neal Morse cantando na sua habitual voz emotiva, sobre um acompanhamento simples de piano, que conduz a uma longa secção instrumental em jeito de abertura operática, com radicais mudanças de ritmo, num som sinfónico sobre o qual se recria a guitarra distorcida de Alan Morse, trazendo breves alusões aos temas seguintes.
 
II. “One Man”: Aos 2:25, a banda pára e o sintetizador marca passo como um pacemaker para a entrada da voz. É o tema “One man”, o mais importante de toda a faixa, aqui na primeira aparição (“Call me cavanaugh”), em que Neal canta a multiplicidade existente em cada pessoa. Esta Parte II segue a estrutura AABABC, onde após duas passagens do tema principal surge o refrão melódico e polifónico (imagem de marca da banda) “all of this in one man”. A voz rouca de Neal Morse, canta sobre o mesmo “pacemaker”, e floreados de guitarra que aos poucos se tornam mais proeminentes. Segue-se a ponte principal da faixa, aqui num solo de guitarra de final abrupto.
 
III. “Garden People”: Aos 5:11 chega a Parte III, com o tema “Garden People”, como um mantra em eco distante, acompanhado por efeitos de piano, interrompido duas vezes, a primeira por um breve solo de guitarra que repete a ponte anterior, mas mais velozmente, a segunda pela bateria de Nick D’Virgilio, para terminar nalgumas linhas etéreas de sintetizador a lembrar Mike Oldfield. A letra faz alusão ao jardim do paraíso, aqui como jardim da humanidade.
 
IV. “Look Straight into the Light”: Aos 6:55 inicia-se um novo tema (“look there’s a light”), que após a primeira estrofe continua como um tema rock com Neal a cantar a união humana para um mesmo objectivo, “olhar para a luz”. A estrutura é AAA’A’B, em que as duas secções A’ são repetições instrumentais do tema principal, com os respectivos desenvolvimentos, guiados pela guitarra distorcida de Alan Morse. Segue-se aos 8:47 uma fanfarra de órgão, a fazer a ponte para o tema seguinte.
 
V. “The Man in the Mountain”: Aos 9:07 inicia-se uma introdução de piano típica de Neal Morse (muitos seriam estes pequenos temas na carreira dos Spock’s Beard), e o tema “One Man” surge pela segunda vez (“I am the man in the mountain)”, desta vez apenas para voz e piano. A estrofe é repetida, seguindo-se uma ponte de piano que imita a de guitarra já presente na Parte I, a que chamei “ponte principal”. Após uma fanfarra com toda a banda, junta-se um segundo tema “they wore all kinds of things”, a ritmo pausado e festivo.
 
VI. “Señor Valasco’s Mystic Voodoo Love Dance”: O Señor Valasco começa em estilo flamenco, primeiro o piano e depois guitarra acústica introduzem a voz de Neal Morse que volta a cantar o tema “One man” (terceira vez), agora num ritmo diferente, sobre guitarras flamencas (“I am Señor Valasco”). Neal canta a humildade, e como o caminho para a felicidade passa pelo desapego dos bens materiais.
 
VII. “The Return of the Horrible Catfish Man”: Abruptamente saímos do flamenco, e toda a banda em fanfarra repete a introdução da Parte I, com a guitarra uivante de Alan Morse sobrepondo-se à bateria e ao baixo proeminente de Dave Meros a lembrar Chris Squire dos Yes. Desta vez não temos um final súbito, mas sim acordes de sintetizadores reminiscentes de Genesis, que levam o tema até à voz distorcida de Neal Morse. Este canta pela quarta vez, agora mais agressivamente, o tema “One Man” (“I am the catfish man”), terminando no refrão já ouvido antes (“all of this in one man”). O título é um piscar de olhos à canção dos Genesis “The Return of the Giant Hogweed”, e por isso introduz um pouco do nonsense que caracterizava as letras de Peter Gabriel.
 
VIII. “The Dream”: Longas notas de guitarra devolvem a faixa ao piano e voz de Neal Morse, que repete em coda o tema inicial “the dream”. Em jeito de conclusão Neal canta a possibilidade de se concretizarem os sonhos.

Spock's Beard nos anos 90

Spock’s Beard nos anos 90: Alan Morse, Ryo Okumoto, Neal Morse, Dave Meros e Nick D’Virgilio

E após 15 minutos os Spock’s Beard chamavam a atenção para o seu jeito especial de fazer rock sinfónico épico, com temas de rara beleza e simplicidade, com uma multiplicidade de influências, e um particular uso das vozes, em contraponto, a lembrar Gentle Giant, e harmonias ao jeito dos Beatles.
 
A banda vocacionou-se para longos épicos, e todos os seus álbuns seguintes teriam alguns. O dinamismo foi sempre a ideia chave, e cada faixa é um carrossel de ideias, não se sabendo nunca para onde iria de seguida. Nunca negando as suas influências, os Spock’s Beard juntaram jazz aos clássicos do sinfónismo rock, guiados pela voz e alma de Neal Morse, que une pop, rock, soul, country, blues, como se a ela fosse uma enciclopédia de música popular.
 
Em 2002, sete anos depois de “The Light”, e com seis álbuns gravados, Neal Morse deixou os Spock’s Beard. Estes não vacilaram, e decidiram continuar como quarteto, com o baterista Nick D’Virgilio (que pelo meio chegou a gravar com os Genesis) a assumir o microfone. Um pouco titubeantes nos dois primeiros álbuns sem Neal, os Spock’s Beard encontraram a sua voz nos dois álbuns seguintes, até Nick D’Virgilio anunciar a sua saída. O futuro está ainda por escrever… Até lá, ouçamos com atenção, e todo o tempo que for preciso.

 

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