Dream Theater – “Octavarium”

Título: Octavarium (24’01”)
Artista: Dream Theater
Álbum: Octavarium (Atlantic, 2005)
Autores: (letra) James LaBrie, John Petrucci, Mike Portnoy / (música) Dream Theater

Falar de Dream Theater é falar de Metal Progressivo, já que ambos os nomes aparecem hoje ligados, como se não fosse possível definir um sem referir o outro. Sendo o Metal Progressivo um género de música que agrega a energia e linguagem musical do Heavy Metal, com as estruturas complexas e veia melódica do Rock Progressivo, as raízes do género pode ser encontradas nos lados mais agressivos de uns King Crimson, ou mesmo Rush. Embora seja habitual referir os Queensryche como a primeira banda importante a fazer esta fusão, acabaram por ser os Dream Theater a erguer o ceptro de representantes-mor deste género que agora parece ser seu.
 
Depois de uma fase em que houve uma constante mudança de vocalistas e teclistas (com 4 álbuns e um EP), a formação estabilizou em 1999 com Mike Portnoy (bateria), John Petrucci (guitarra), John Myung (baixo), James LaBrie (voz) e Jordan Rudess (teclados). Este quinteto gravou os seis álbuns seguintes, entre eles “Octavarium” de onde se extraiu o tema deste artigo.
 
“Octavarium”, foi o oitavo álbum dos Dream Theater, e tem o número “8” ligado a si de várias formas. Por exemplo, as canções (oito no total) foram escritas de modo em que o conjunto dos tons de cada uma constituisse uma oitava. Depois do conceptual “Scenes From a Memory”, do metálico “Train of Thoughts” e do orquestral “Six Degrees of Inner Turbulence”, a banda queria simplificar com temas mais curtos e directos, fazendo aquilo a que chamaram um “álbum clássico de Dream Theater”. Depois de 7 temas curtos sobrava espaço para o oitavo (pois claro), “Octavarium”.
 
“Octavarium”, o tema-título, é uma homenagem aos clássicos do rock progressivo, fazendo-lhes inúmeras referências, tanto musicais como líricas, é um épico que faz uso da orquestra, e evolui a partir de um tema cuja primeira frase tem oito notas, e que chamarei “tema de oito notas”, que se repete nos momentos chave. Apresenta-se dividido em cinco partes, que se apresentam de seguida.
 
Introdução: Tudo começa com uma extensa introdução de notas longas atmosféricas, a lembrar “Shine On You Crazy Diamond” dos Pink Floyd. Jordan Rudess em lap steel guitar e Continuum (um instrumento invulgar, que se toca deslizando um dedo numa espécie de touch screen bidimensional) desenvolve o tema com longos gemidos, passando a notas mais soltas, ouvindo-se pela primeira vez o tema de 8 notas. Aos 3:46, a banda arranca de forma orquestral sob a batuta de Rudess. Sobre uma guitarra acústica ouve-se novamente o tema de 8 notas, agora desenvolvido, em flauta.
 
I. Someone Like Him: A Parte I propriamente dita inicia-se aos 5:16 em guitarra folk, a lembrar o início de “Supper’s Ready” dos Genesis. Surge então a voz de James Labrie (“I never wanted to become”), que canta no seu registo adocicado. Após duas passagens, segue-se um segundo tema (“as far as I could tell”), onde Labrie canta já mais perto do seu registo “metálico”, a plenos pulmões, agora com toda a banda a acompanhá-lo. Liricamente canta-se um “cuidado com o que desejas”, onde o personagem principal conta como sempre ambicionou ser diferente dos outros e agora que o conseguiu vê que o melhor que pode desejar é ser com as outras pessoas.
 
II. Medicate (Awakening): 8;48, o baixo de John Myung avança e recria-se num curto solo, sobre a bateria de Mike Portnoy, pontuado pelo piano de Rudess, que dá o tom para novo tema (“a doctor sitting next to me”). Segue-se o refrão (“medicate me”) ainda em registo doce, e a repetição do tema (“a higher dosage he prescribes”) e novo refrão (ABAB). O refrão termina dando lugar a um acelerado solo de teclados, sobre a guitarra a arranhar e bateria dinâmica ao bom estilo metálico. A letra conta como um paciente acordou de um sono de 30 anos, tratado por um médico, mas que em breve voltará à inconsciência por que a medicina não o consegue manter acordado.
 
III. Full Circle: Aos 13:48 a guitarra de Petrucci segue com um riff repetitivo, enquanto Labrie canta de modo mais agressivo (“sailing on the seven seize”), sobre um ritmo sincopado, a lembrar “Supper’s Ready” dos Genesis, que é aliás referida na letra. Novamente em ABAB, esta parte temina com novo solo de teclados, depois imitados pela guitarra. A letra é uma homenagem ao rock progressivo, feita a partir de títulos de canções, entrelaçados de modo que frases surjam desse encadeamento. “Full Circle” é uma ideia recorrente dos Dream Theater, que durante anos começaram álbuns com a nota com que terminava o precedente, e vão insistindo na ideia de que tudo começa como acaba, o que motiva esta Parte III.
 
Interlúdio: Como interlúdio instrumental, aos 16:40 Petrucci mostra a sua técnica de muitas notas por segundo, num rápido galope de guitarra sobre a bateria complexa de Portnoy, enquanto o baixo vai subindo escalas. Um minuto depois o tema ganha um aspecto de vaudeville, e vai saltando de género em género, em contínuos solos de guitarras de timbres diferentes.
 
IV. Intervals: Aos 18:30 a guitarra termina num longo eco, e as teclas dão o mote. Labrie canta “Our deadly sins feel his mortal wrath” declamando, num registo a lembrar “Forgotten Sons” de Marillion. A banda vai-se juntando em crescendo, estrofe a estrofe (e são oito, claro), cada uma precidida pelo nome de uma escala, dito por Portnoy. Tudo culmina em “Trapped inside this Octavarium”, já gritado por Labrie, que assim nos explica os ciclos viciados da existência e a incapacidade de se lhes fugir.
 
V. Razor’s Edge: Com um efeito catártico, aos 19:56 chega o “alívio” da tensão anterior, com a orquestra a repetir (e a desenvolver) o tema de 8 notas. Labrie canta “we move in circles”, sobre a orquestra como tema final, em jeito apoteótico. Petrucci continua repetindo o tema inicial da Parte I “I never wanted to become someone just like him”, partindo para um sentido solo de notas longas, sobre a orquestra, que finaliza com a reprise do refrão da Parte II “medicate me”. Como epílogo, ao longe, a flauta repete o tema de 8 notas. A letra assume a inevitabilidade dos ciclos em que vivemos “This story ends where it began”.

Dream Theater em 2005

Dream Theater em 2005: (atrás) John Petrucci, Mike Portnoy, John Myung; (à frente) Jordan Rudess, James Labrie

Mais melódico que a média dos seus temas, “Octavarium” tem ainda assim nítidos laivos de Heavy Metal, sendo acima de tudo um épico sinfónico no primeiro álbum dos Dream Theater a fazer uso de uma orquestra. Embora com alguns temas diferentes, fica uma forte ideia de unidade, por isso talvez, é uma faixa que se ouve como se nem tivessem passado 24 minutos.
 
Quer na letra, quer na música, são feitas inúmeras referências. A título de exemplo ficam algumas da Parte III “Full Circle”: Genesis (Supper’s Ready, Cinema Show); Pink Floyd (Careful with that Axe Eugene, Home Again); The Who (My Generation); The Doors (Light My Fire); Yes (Machine Messiah); The Beatles (Day Tripper, Lucy in the Sky with Diamonds); Spock’s Beard (Day for Night).
 
A letra repete a característica cinemática habitual nos Dream Deather, onde numa narrativa directa, são pintadas imagens claras, evocativas de filmes (“Awakenings” de Penny Marshall, 1990, é um exemplo na Parte II). O tema principal (o ciclo fechado) usa exemplos clássicos em Dream Theater como são as diferentes percepções e estados de consciência (veja-se o álbum “Metropolis II: Scenes From a Memory”, e a suite “Six Degrees of Inner Turbulence”).
 
Mas ainda assim fica muito por descobrir. Por isso vale a pena repetir, e ouvir ainda com mais atenção, sem interrupções, com todo o tempo que for preciso.

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