Pink Floyd – “Echoes”

Título: Echoes (23’28”)
Artista: Pink Floyd
Álbum: Meddle (Harvest, 1971)
Autores: Roger Waters, Richard Wright, Nick Mason, David Gilmour

Em 1971 os Pink Floyd encontravam-se em transformação. Tendo começado no final dos anos 60 como uma banda de topo na cena psicadélica inglesa, a saída de Syd Barrett levou o grupo a procurar outros caminhos. Cada elemento procurava acrescentar algo seu, o que por vezes resultava em desequilíbrios nos seus álbuns. Crescia o experimentalismo e a banda navegava entre a inovação e a auto-indulgência, como o demonstram os duplos álbuns “Ummaguma” e “Atom Heart Mother”.
 
Conceituados entre a juventude intelectual, é entre intensivas digressões (e contínuas presenças no cinema, com bandas sonoras para filmes avant-garde) que surge “Meddle”, um disco da viragem. É com “Meddle” que os Pink Floyd começam a encontrar a voz que marcaria a fase mais reconhecida da sua carreira. Com um cada vez maior conhecimento e uso de inovações técnicas, e improvisando formas de gravação, os Pink Floyd criam texturas de múltiplas camadas, desenvolvendo o som sinfónico da banda.
 
É esse gosto pela complexa texturização e criação de sons, que os leva a dedicar seis meses a temas aparentemente inconsequentes, a que chamam “Nothings”, que evoluem para a construção “Son of Nothings” que chegou a ser apresentado ao vivo como “Return of the Son of Nothings”, antes de ganhar o título definitivo “Echoes”, o tema que ocuparia toda a segunda face do álbum “Meddle”.
  
Propositadamente, “Echoes” começa com notas que parecem pingos de água ecoando à distância, dando o tom para as pinceladas que se seguem na paisagem que tem muito de atmosférico. A guitarra revela-se com notas lentas e aveludadas, também longínqua, apenas uma forma de nos fazer sentir acolhidos no contínuo gotejar.
 
Como tema principal a voz de Gilmour (com a de Wright em eco) surge como que murmurando ao longe uma lengalenga para nos adormecer “Overhead the albatross hangs motionless upon the air”. Um refrão instrumental em forma sinfónica (alegadamente copiado por Andrew Lloyd Weber em “Phantom of the Opera”) separa as duas estrofes cantadas, e repete-se de forma alongada.
 
Por volta do minuto 7 surge um longo interlúdio instrumental, primeiro com improvisações de guitarra sobre uma base fixa de baixo e bateria. Perto do minuto 11 é a vez de diversos efeitos sonoros a lembrar um vento assombroso, gritos de gaivotas no nevoeiro, ou uivos fantasmagóricos. O vento definha, e voltam os “pingos” conduzindo a uma nova secção onde as teclas tocam melodiosamente sobre um baixo ostinato, que aos poucos começa a dominar o tema, e que sobe como uma sirene.
 
Bruscamente, aos 19:20, a voz de Gilmour devolve-nos o tema principal, cantando “Cloudless every day you fall”, ainda na forma de canção de embalar até ao regresso do refrão instrumental sinfónico, que se vai repetindo até ao final.
 
Como epílogo a guitarra e teclas desafiam-se em “eco” com frases feitas de lentas notas límpidas, sobre repetidos efeitos de ventos distantes, que lentamente vão tomando a paisagem.
 
Roger Waters diria mais tarde que a letra reflecte o potencial que os seres humanos têm para reconhecer e responder empaticamente à humanidade uns dos outros. Mas mais que o significado literal, o poema de “Echoes” é célebre pelo imaginário evocado, de longos espaços, céus vazios, gritos distantes, paisagens profundas de vastidão e isolamento.

Pink Floyd em 1971

Pink Floyd em 1971: Richard Wright, David Gilmour, Nick Mason e Roger Waters

Com o álbum “Meddle”, e muito principalmente com o tema “Echoes”, os Pink Floyd abriam novo caminho, para um sinfonismo contido, sem exuberâncias nem orquestras, mas feito da complementaridade dos quatro músicos, e de uma apurada exploração técnica que resultava numa arte de criar texturas sonoras. Este som caracteriza-se ainda pelas harmonias, pelo respirar com tempo, dando uma sensação de espaço ilimitado, fazendo com que cada nota e cada som tenham um lugar próprio. Daqui vem o adjectivo “floydiano” que tantas vezes é usado para caracterizar excertos musicais.
 
Com “Echoes” abria-se o caminho para os álbuns sinfónicos dos Pink Floyd, que marcariam os anos 70: “Dark Side of the Moon”, “Wish You were Here”, “Animals” e “The Wall”. Com eles, os Pink Floyd tornaram-se uma das mais famosas e influentes bandas de sempre, carregando uma mística única, e sendo referência visível de quase todas as bandas que tentam fugir aos limites do pop para fazer música, sejam elas Marillion, Porcupine Tree, Radiohead ou Sigur Ros.

Dedicado ao meu amigo Miguel Baptista, um músico com uma sensibilidade muito rara.

 

3 responses to “Pink Floyd – “Echoes”

  1. Excelente crítica dum dos meus temas preferidos dos Floyd.
    Acho que me revi em tudo, desde a avaliação objectiva, em termos de composição, do uso dos silêncios, como da apreciação subjectiva do que é que aquele conjunto de sons e harmonias evocam no ouvinte. E curioso que, não sei se foi feito de forma consciente, estou a crer que sim, mas é quase transversal esta noção de vastidão musical quando se ouve este tema… aliás, do contrastar entre essa desolação que vem muito da parte instrumental, e a parte humana, que está expressa na letra e na frase que mais é referida pelos Floyd como um tema que resurge em muitos outros temas futuros: “Strangers passing in the street by chance two separate glances meet, and I am you and what I see is me”..

    Quanto à sensibilidade rara, chamemos-lhe panca por descobrir quais as diferentes tonalidades de cada música.
    Característica que aliás, também é tua 🙂 Abraço !

  2. Estas coisas são subjectivas, mas quando o que escrevemos ecoa (tinha que usar o verbo, não é?) noutra pessoa, é ainda mais compensador Obigado pelo comentário, e cá fico à espera dos teus textos. 😉

  3. Otima interpretação, so nao sabia que esse album foi o inicio do legado.
    E muito difícil falar disso mas,com a formação de medley ,eles foram os melhores que ja existio no rock.mas aceito qualquer obijesao

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