Porcupine Tree – “Anesthetize”

Título: Anesthetize (17’44”)
Artista: Porcupine Tree
Álbum: Fear of a Blank Planet (RoadRunner, 2007)
Autor: Steven Wilson

Os Porcupine Tree têm uma história curiosíssima, pois começaram em 1987 como um projecto fictício do multi-instrumentista Steven Wilson, que lhes desenhou um website e escreveu a biografia fantasiosa, cheia de incidentes rocambolescos, acompanhada de trechos musicais escritos com o seu amigo Malcolm Stocks. O fenómeno gerou curiosidade, os trechos resultaram numa demo, esta num álbum (em 1991), e depois noutro, até Wilson perceber que os Porcupine Tree eram algo mais sério do que ele previra. Em 1993 Wison montou uma banda verdadeira, e começaram uma carreira “normal”. Os Porcupine Tree estabilizariam no line-up constante de Steven Wilson (guitarra e voz), Richard Barbieri (teclas), Colin Edwin (baixo), e Gavin Harrison (bateria), que substituiu em 2002 Chris Maitland. A banda integra ainda ao vivo o guitarrista John Wesley.
 
Com uma ascenção quase imediata no meio underground do rock progressivo, alimentado pela internet, os Porcupine Tree foram descritos como os Pink Floyd dos anos 90, com um som entre o psicadelismo e a melancolia espacial que caracterizava a banda de Waters e Gilmour. Também a reputação de Steven Wilson não parou de crescer, tornando-se uma das pessoas mais requisitadas da cena progressiva actual, seja como músico, compositor ou produtor, tem participado em trabalhos de gente como Anathema, Dream Theater, Fish, Marillion, Opeth, OSI, Paatos, Yoko Ono, entre muitos outros. Pelo meio editou já alguns álbuns a solo, e participa em projectos paralelos como No-Man (com Tim Bowness), Blackfield (com o israelita Aviv Geffen) e Storm Corrosion (com Mikael Åkerfeldt, dos Opeth).
 
Mas dado o espírito irrequieto e diversidade de influências de Steven Wilson (líder incontestado e compositor quase exclusivo da banda), em breve outros contextos sonoros se juntavam à palette da banda. É já nessa fase que surgem “Deadwing” e “Fear of a Blank Planet”, álbuns mais agressivos onde há mesmo uma aproximação à fase mais hard de bandas como King Crimson e Rush. Não surpreende por isso que este último álbum conte com colaborações de Robert Fripp e Alex Lifeson.
 
É de “Fear of a Blank Planet” a faixa “Anesthetize”, em que, um pouco espelhando uma tendência de Wilson, este canta o modo como o mundo nos anestesia através de tantas formas de alienação e dessensibilização que nos chegam e nos tornam autómatos, dependentes de vícios e drogas, inseridos em comportamentos colectivos que não questionamos.
 
Musicalmente podemos dividir o tema em três secções. A primeira decorre sobre um ribombar repetitivo de bateria com Wilson a cantar ao seu jeito melancólico e arrastado “A good impression of myself”, sobre guitarras ecoantes, que após um solo de Alex Lifeson (Rush) evolui para uma parte instrumental de jogos de guitarras distorcidas em várias camadas, culminando em riffs quase de heavy metal.
 
A segunda parte inicia-se por volta do minuto 6:40, com um riff repetitivo de guitarra substituído pela voz “the dust in my soul”, sobre uma base fixa de baixo e bateria. O refrão apoteótico (“only apathy from the pills in me”) vê a banda num uníssono sinfónico, criando uma sensação de inconstância e instabilidade através de constantes quebras de ritmo e duelos de instrumentos. A repetição e sobreposição das várias texturas lembra o minimalismo, que é logo suplantado por mais uma secção pesada.
 
A terceira parte inicia-se com silêncio depois do minuto 12, apenas quebrado por sons atmosféricos, a que se junta uma guitarra límpida a dar a entrada para a voz (“water so warm”) cantado em cânone por várias camadas de vozes a realçar o carácter atmosférico e ecoante da música, na secção que mais aproxima do tema de Pink Floyd. Steven Wilson usa o seu habitual registo melancólico, enquanto as notas de piano lembram Richard Wright. Um breve e melodioso solo de guitarra conduz o tema ao seu final.

Porcupine Tree em 2006

Porcupine Tree em 2006: Richard Barbieri, Steven Wilson, Colin Edwin e Gavin Harrison

Com melodias simples, vocalizações evocativas de ecos distantes e conferindo uma melacolia constante, os Porcupine Tree conseguem aliar um minimalismo simplista a um som mais experimental, e mesmo agressivo. Fazem-no com uma produção elaborada de sobreposição de camadas, mas sempre com um enorme sentido harmónico, que faz com que os vários movimentos do tema fluam graciosamente de uns para os outros.
 
Com essa capacidade de agruparem os fãs do progressivo clássico aos mais ávidos da agressividade do hard rock, e a geração mais jovem sensível a um rock alternativo herdeiro do grunge, “Anesthetize” reúne todas as características que tornam os Porcupine Tree uma banda trans-geracional, e uma das mais consensuais do progressivo actual. Por isso e sobretudo pela qualidade do tema, vale a pena ouvir “Anesthetize” repetidas vezes, e com muito tempo.

 

3 responses to “Porcupine Tree – “Anesthetize”

  1. Grande descrição Zé!!!Infelizmente é por temas como este que ao longo destes últimos anos tenho selecionado as minhas audições preterindo os nossos Marillion para 2º plano….

    • Não é “infelizmente” enquanto tens música para descobrir e para te estimular. Ninguém vive só de uma banda ou de uma música. Obrigado pelo elogio, e vai continuando por aqui, que todas as semanas haverá mais música para contar e ouvir. 🙂

  2. excelente descrição Zé. Não conhecia esta e de facto esta é certamente uma das bandas essenciais do nosso tempo. Obrigado.

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