Änglagård – “Höstsejd”

Título: Höstsejd (15’34”)
Artista: Änglagård
Álbum: Epilog (edição de autor, 1994)
Autores: Tord Lindman, Johan Högberg, Thomas Johnson, Jonas Engdegård, Mattias Olsson e Anna Holmgren

Em 1992 a Suécia entrava pela porta grande na chamada terceira vaga do rock progressivo. Os autores da proeza foram a banda Änglagård (em português Lugar Angelical), fundados pelo vocalista e guitarrista Tord Lindman e pelo baixista Johan Högberg. A eles juntaram-se o teclista Thomas Johnson, o guitarrista Jonas Engdegård, o baterista Mattias Olsson e a flautista Anna Holmgren. Juntos gravaram dois álbuns, “Hybris” de 1992 e “Epilog” de 1994, que espantaram o mundo progressivo pela sua coesão, e linguagem original que, inserida no contexto sinfónico reminiscente de King Crimson, Yes ou Genesis, trazia um sabor folk de raízes escandinavas.
 
De facto, embora pouco conhecida no resto da Europa, a música tradicional sueca é bastante reputada no seu país, fazendo parte de um rico folclore que engloba poesia, mitologia e histórias tradicionais, e é transversal à música do influente trovador do século XVIII Carl Michael Bellman, dos compositores românticos do século XX Hugo Alfvén e Wilhelm Stenhammar, e claro de bandas de rock progressivo dos anos 70 como Kaipa e Isildurs Bane.
 
Foi esse património, inspiração clássica, e raízes tradicionais, que levou os Änglagård a criar o seu sinfonismo. Este é marcado pelo som cheio do mellotron, a lembrar os primeiros tempos dos King Crimson, e pela melancolia da flauta, mas com um dinamismo típico de Yes ou Genesis. Os Änglagård conseguiam assim uma música de cores sombrias, evocativa da escura paisagem sueca, levando-nos para mitos sobre as mudanças de estações, vastidão, e o peso dos elementos da natureza.
 
Ainda em 1994 os Änglagård, então no auge da sua carreira, acabados de participar no Progfest de Los Angeles (que seria editado no álbum “Buried Alive” de 1996), anunciaram o seu fim. A banda teria alguns tímidos regressos pontuais, até voltar em 2012 com nova formação e novo álbum, “Viljans Öga”, que viria a ser apresentado no Gouveia Art Rock de 2012.
 
Do segundo álbum, “Epilog”, ao contrário do primeiro, completamente instrumental, consta o longo tema “Höstsejd”, que significa “Sagração do Outono”, tornando-se assim uma espécie de resposta bucólica (em título apenas, claro) à conhecida “Sagração da Primavera” de Stravinsky.
 
Ilustrando isso, o tema surge acompanhado de um pequeno poema, que nos conta como o sol lento possibilita a transformação nas mil cores do Outono, o qual depois definhará em desolação, abandono e tempestade, que como um ritual queimará os bosques para iniciar um novo ciclo no ano seguinte.

Änglagård em 1993

Änglagård em 1993. Atrás, em pé: Anna Holmgren, Thomas Johnson, Johan Högberg e Jonas Engdegård; à frente, de cócoras: Mattias Olsson e Tord Lindman.

“Höstsejd” começa com entradas bruscas de mellotron, sobre repetidas escalas de órgão, a lembrar Genesis da fase Nursery Cryme. Seguem-se silêncios a criar tensão, seguidos do desenrolar da melodia. A guitarra é aveludada, e o mellotron está sempre presente como um vento perene e ameaçador. Sem uma estrutura clara, o tema alterna estados de espírito, quase sempre bruscamente, do mais delicado e pastoral (flauta, piano e guitarra acústica), ao mais agressivo (num excelente trabalho de percussões, e jogos de guitarras a lembrar King Crimson). As melodias são evocativas de ambientes fantásticos, cheios de tensão e melancolia.
 
Graças os Änglagård o progressivo sueco dos anos 90 tornava-se uma marca de qualidade, dando lugar ao aparecimento de imensas bandas, muito apreciadas pelos críticos, desde os sinfónicos Anekdoten, Ritual, Morte Macabre e The Flower Kings até aos metálicos Pain of Salvation e Opeth.
 
“Höstsejd” é um excelente exemplo desse novo mundo vindo da Escandinávia. Um tributo à melancolia e romantismo da natureza, pintado com as cores do Outono. Para ouvir repetidas vezes, com tempo e atenção.

 

2 responses to “Änglagård – “Höstsejd”

  1. Obrigado por mais este “insight”, JC. Conhecia a banda apenas de nome, mas depois de ouvir este tema, não irei, certamente, ficar por aqui.
    Curioso o facto de ultimamente andar a descobrir tantas obras interessantes que surgem na Suécia e que considero brilhantes, como a conhecida trilogia do Stieg Larsson, as obras do Mankell. Caso nunca tenhas visto, recomendo ainda o filme “Låt den rätte komma in”. Obra sobre o fenomeno dos vampiros, explorada neste caso de forma diferente, fora do estereótipo desgastado do cinema americano, em particular da irritante saga Twilight.

  2. Conheço o filme, sim. Muito bom… e muito sueco. Como sabes tenho uma ligação especial ao país, e em termos musicais é uma mina a explorar pelo “In extenso” mais vezes. Quanto à literatura, se quiseres algo menos urbano e moderno, mas mais campestre e clássico, aconselho a obra de Selma Lagerlöf e Torgny Lindberg. Então lê-los a ouvir Änglagård é perfeito.

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