King Crimson – “Lizard”

Título: Lizard (23’16”)
Artista: King Crimson
Álbum: Lizard (Island, 1970)
Autores: Robert Fripp e Peter Sinfield

Os King Crimson são geralmente considerados como a banda que iniciou o rock progressivo, termo que o seu líder e fundador, Robert Fripp, sempre renunciou. O facto é que, com o seu primeiro álbum de 1969, “In the Court of the Crimson King”, os King Crimson criaram um som que aliava diversos géneros, desde a música clássica ao jazz, passando pelo blues, rock e psicadelismo, que influenciou bandas como Genesis e Yes.
 
Mas falar de King Crimson é falar de uma profusão de estilos, numa banda que nunca parou de evoluir, de se renovar musicalmente, e de deixar que a componente de improvisação e experimentalismo deixasse de fazer parte dos seus trabalhos. Muito dessa característica se deve ao facto de também em termos humanos os King Crimson terem sempre sido uma banda em evolução, tendo passado por fases muito distintas, nas quais o factor comum tem sido sempre o incontornável Robert Fripp.
 
Interessa-nos aqui a fase inicial da banda, nascida das cinzas dos Giles, Giles & Fripp, quando Robert Fripp (guitarras) e Michael Giles (bateria) se juntaram a Ian MacDonald (flauta e teclas), futuro fundador dos Foreigner, e Greg Lake (voz e baixo), futuro fundador dos Emerson Lake & Palmer. A banda impressionou pelo seu som sinfónico, advindo do extenso uso do mellotron, então uma novidade nas bandas rock, e extensas peças de formato complexo, com sons originais e longos solos. A música assentava nas letras de Pete Sinfeld, creditado como membro da banda, e o ideólogo dos King Crimson.
 
Após o primeiro álbum os King Crimson desfizeram-se, e a partir de então Fripp e Sinfeld foram recrutando músicos que ficavam pouco tempo, e convidando amigos a preencher lugares vazios temporariamente. Foi nessa fase de entradas e saídas, que os King Crimson gravaram “In the Wake of Poseidon”, e “Lizard”, do qual se extrai o tema título, a longa suíte de cerca de 23 minutos.
 
O tema seria gravado com músicos que já vinham das sessões de “In the Wake of Poseidon”, nomeadamente Gordon Haskell (baixo e voz), Mel Collins (saxofone e flauta) e Keith Tippett (piano), aos quais se juntaram o baterista Andy McCulloch, a participação especial de alguns músicos de jazz: Robin Miller (oboé e corne inglês), Mark Charig (corneta) e Nick Evans (trombone), e finalmente a voz de Jon Anderson, o vocalista dos Yes.
 
O tema “Lizard”, que fala de uma épica batalha combatida por Prince Rupert, está dividido em quatro partes começando com “Prince Rupert Awakes”, cantado pela voz etérea de Jon Anderson, que como um anjo nos sussurra a partir de sonhos distantes.O refrão folk, melódico, que o completa é pontuado por notas cristalinas de guitarra e piano, que nunca se sobrepõem à melodia vocal. Um coro vocal, acompanhado do majéstico mellotron, condu-lo para a segunda parte.
 
“Bolero”, como o título indica, baseia-se no famoso Bolero de Ravel, que é indicado pela bateria de McCulloch. Sobre ela alternam-se os solos, que vão do delicado (e algo cinemático) ao puramente jazz, dos sopros, aqui e ali repetindo o tema central de Prince Rupert.
 
Após uma pausa, cerca dos 11’20” inicia-se “The Battle of Glass Tears”, cuja primeira secção (“Dawn Song”) é cantada em jeito de balada medieval pela voz grave de Gordon Haskell. O mellotron e a secção rítmica dão a entrada para “Last Skirmish”, que em tons assombrosos nos pintam as cores violentas da batalha numa cacofonia de sopros. Esta terceira parte termina num longo lamento da guitarra de Fripp intitulado “Prince Rupert’s Lament”.
 
O tema finaliza na curta coda “Big Top”, que soa a um realejo de feira, distorcido na parte final.

King Crimson em 1970

King Crimson em 1970 durante as gravações de “Lizard”: Robert Fripp, Mel Collins, Andy McCulloch, Gordon Haskell e Pete Sinfield.

“Lizard” não chegou a ser tocado ao vivo por este ensemble, já que tanto Gordon Haskell como Andy McCulloch deixariam a banda logo de seguida, e uma nova banda teve de ser montada por Fripp e Sinfield. Ainda assim, e contrariando a instabilidade em termos de músicos, a fase inicial dos King Crimson ficou marcada por uma enorme coerência musical, estabelecida em torno de um som cheio e sinfónico, de inovadores efeitos da guitarra de Fripp, de melodias complexas, de um ambiente nostálgico, e de infusões clássicas e jazzísticas.
 
O tema “Lizard” seria o mais longo tema de estúdio da carreira dos King Crimson, e um exemplo das atmosferas majestosamente lânguidas e nostálgicas, onde um mellotron dialogava com solos de jazz, numa visão musical que viria a inspirar tantas outras bandas.

 

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