Category Archives: 2015

Crítica: “+4626 – Comfortzone” – Beardfish

+4626 - Comfortzone

+4626 – Comfortzone
Artista: Beardfish
Data: Janeiro, 2015
Editora: InsideOut Music

“+4626 – Comfortzone” é o sucessor de “Void” (2012), um álbum em que os suecos Beardfish confirmavam estar apostados em rumar por um caminho mais pesado que aquele dado a entender na dupla “Sleeping In Traffic” (2007 e 2008), que lhes trouxe a apreciação da comunidade prog.
 
Mas o oitavo álbum de originais dos Beardfish é um arrepiar de caminho, e regresso a lugares mais tranquilos e melódicos. Com 10 temas que se encadeiam uns nos outros, “+4626 – Comfortzone” é um trabalho fácil de ouvir, apelando aos fãs de um progressivo sinfónico, pontuado por guitarras que lembram Robert Fripp, com uma voz (Rikard Sjöblom) que por vezes traz uma nostalgia reminiscente de Procol Harum. Menos arrojado que os álbuns citados, “+4626 – Comfortzone” tem, ainda assim, motivos de interesse para os fãs do som desta banda.
 
A edição especial do álbum conta com um segundo CD com demos e outtakes de 2002 a 2008.

Crítica: “Home” – Sylvan

Home

Home
Artista: Sylvan
Data: Fevereiro, 2015
Editora: Gentle Art of Music

A banda alemã Sylvan lançou este ano o seu nono álbum de originais, o conceptual “Home”, que sucede o aplaudido “Sceneries” de 2012. Mostrando que continuam a ser um dos arautos do chamado neo-prog, os Sylvan continuam de álbum para álbum rumar o caminho traçado com o excepcional “Posthumous Silence” de 2006, um dos marcos do neoprog do novo milénio.
 
É isso que acontece com “Home”, um álbum marcado por um som grandioso e cheio de romantismo (não fosse a Alemanha pátria de Beethoven, Brahms e Wagner), onde temas como “Not Far from the Sky” “Shaped out of Clouds”, “Off Her Hands” e “Shine” são retirados do seu DNA, com muitas passagens de piano, atmosferas dramáticas e o fio condutor que é a voz sofrida de Marco Gluhmann. O álbum passa do melhor a vários temas menos inspirados, sempre com um pé no operático, e outro no som metálico, como evidente em “In Between”. Não é um clássico como “Posthumous Silence”, mas não deixará de agradar aos fãs.

Crítica: “The Grand Experiment” – The Neal Morse Band

The Grand Experiment

The Grand Experiment
Artista: The Neal Morse Band
Data: Fevereiro, 2015
Editora: InsideOut Records/Radiant Records

Pela primeira vez um álbum a solo de Neal Morse chega assinado como “The Neal Morse Band”, em vez de ostentar apenas o nome do músico. Sinal de que algo mudou na sua música? Na verdade não se nota muito. Se a mudança no nome é explicada por Morse como devendo-se ao facto de pela primeira ter vez ido para o estúdio sem ideias prévias, o resultado parece mostrar um Morse perfeitamente em controlo das operações, para produzir aquilo que já devia ter sido patenteado como “som Morse” (desta vez com mais gente a cantar). Quem segue a carreira de Neal Morse, dos primeiros Spock’s Beard e dos Transatlantic, sabe a que me refiro.
 
Temos então cinco temas com muita energia, muito rock, muito sinfonismo, muito virtuosismo instrumental, muitas harmonias vocais, muitas melodias de sensibilidade pop ligadas por estruturas e arranjos progressivos sempre com a assinatura Morse, tão fácil de identificar, e que nos deixa no final a sensação de termos feito uma viagem épica (porque não espiritual?), o que Morse consegue sempre, mesmo nos álbuns não conceptuais. É seguro dizer-se que quem gosta do som Morse vai gostar de mais este tomo, quem não gosta ou se cansou dele, não é por aqui que se vai entusiasmar.
 
E quem é essa tal Neal Morse Band? Os suspeitos do costume, Mike Portnoy (bateria, vozes), Randy George (baixo), Eric Gillette (guitarra, voz) e Bill Hubauer (teclas, voz), que juntos compuseram e tocaram os cinco temas do álbum. A edição especial de “The Grand Experiment” é acompanhada de um segundo disco que inclui três outtakes e duas versões ao vivo de temas antigos de Morse, e um DVD com o já habitual “Making of”.

Crítica: “Breaking of the World” – Glass Hammer

Breaking of the World

The Breaking Of The World
Artista: Glass Hammer
Data: Março, 2015
Editora: Arion Records

Os norte-americanos Glass Hammer voltaram este ano ao mundo dos discos, com «The Breaking Of The World», que é já o seu décimo sexto álbum de originais. Notável para uma banda formada em 1992. Fruto da conjunção de esforços de Steve Babb e Fred Schendel, que descobriram um comum interesse em literatura fantástica (Tolkien, C. S. Lewis) e medieval, e um gosto pelo rock sinfónico dos anos 70, os Glass Hammer tornaram-se uma referência no panorama prog dos EUA, com um som que se refere sempre aos grandes clássicos (Yes, ELP, Genesis, etc.)
 
Não decepcionando os seus fãs, «The Breaking Of The World» é mais um álbum fortemente sinfónico, com melodias dinâmicas, mas desenganem-se aqueles que pensavam com a saída de Jon Davidson para os Yes, o som da banda iria mudar muito. O novo vocalista, Carl Groves, continua a trilhar caminhos que colocam a sonoridade dos Glass Hammer perto daquela que parece ser a sua banda de eleição, os Yes. Por isso o álbum, embora agradável e cheio de virtuosismo, relembra um pouco uns Yes próximos dos seus mais recentes trabalhos, não estimulando aqueles que não sejam indefectíveis da banda.

Crítica: “Until the Ghosts Are Gone” – Anekdoten

Until the Ghosts Are Gone

Until All The Ghosts Are Gone
Artista: Anekdoten
Data: Abril, 2015
Editora: Musea

Os Anekdoten foram um dos nomes mais sonantes daqueles que no início dos anos 90 trouxeram um ressurgir do rock sinfónico a partir da Suécia. Começando por tocar covers de King Crimson, o som dessa banda, cheio de mellotron e guitarras “frippianas”, marca claramente os seus primeiros (e muito aclamados) álbuns “Vermod”, de 1993, e “Nucleus”, de 1995. Depois disso a banda divergiu para caminhos mais calmos e melancólicos, com música mais atmosférica e influências do rock alternativo de bandas como os Radiohead.
 
Oito anos depois de “A Time of Day” (2007), os Anekdoten voltaram a reunir o seu elenco, que se mantém estável desde o primeiro dia: Nicklas Barker (voz, guitarras, teclas, mellotron), Anna Sofi Dahlberg (mellotron, teclas, violino), Jan Erik Liljeström (baixo) e Peter Nordins (bateria, persussão), para editar o esperado sexto álbum, “Until All The Ghosts Are Gone”. O resultado é quase que uma viagem pela carreira do conjunto, com o primeiro e último temas (“Shooting Star” e “Our Days Are Numbered”) a mostrarem uma banda em grande forma, a recuperar o melhor som dos seus primeiros tempos, no que serão certamente temas fortíssimos ao vivo. Já o resto do álbum parece demasiado mole, a seguir a veia melódica e melancólica que a banda tem explorado, mas com um fôlego muito modesto.

Crítica: “Cheating the Polygraph” – Gavin Harrison

Cheating the Polygraph

Cheating the Polygraph
Artista: Gavin Harrison
Data: Abril, 2015
Editora: Kscope

Gavin Harrison é mais conhecido no mundo do prog como o baterista dos Porcupine Tree desde 2002, e da actual formação dos King Crimson. Tem no entanto uma longa carreira de colaboração em inúmeros projectos, e um álbum a solo, “Sanity & Gravity”, de 1997. Surge agora, o seu segundo trabalho em nome próprio “Cheating the Polygraph”, de 2015, onde Harrison prova a versatilidade as suas influências.
 
“Cheating the Polygraph” é simplesmente um rearranjo das suas músicas preferidas dos Porcupine Tree, num contexto de Big Band de jazz. Assim, se como é esperado, um ensemble de metais conduz as melodias, sobre um baixo e bateria de características jazzísticas, desengane-se quem espera encontrar arranjos clássicos. Co a colaboração do baixista Laurence Cottle, Harrison consegue arranjos modernos, e ritmos surpreendentes onde por vezes nos esquecemos que estamos a ouvir Porcupine Tree, noutras sabe bem a reinterpretação. Em suma, um trabalho fresco e imaginativo, para quem gosta deste tipo de fusão.

Crítica: “From a Distance” – Not A Good Sign

From A Distance

From a Distance
Artista: Not A Good Sign
Data: Fevereiro, 2015
Editora: AltrOck

“From A Distance” é o segundo álbum de originais da banda italiana Not A Good Sign, um projecto paralelo de músicos das bandas avantgarde Yugen, Ske e La Coscienza di Zeno. Ao contrário do que se passava naquelas bandas, de música mais experimental e vanguardista, Not A Good Sign tenta reviver os sons clássicos dos anos 70.
 
Não espanta assim que ouçamos, em “From A Distance”, música que se define por um forte virtuosismo, em temas onde se detecta a influência de bandas como ELP ou King Crimson. Cantado em inglês, o álbum é marcado pela forte presença de pianos, sintetizadores, órgãos Hammond, mellotron, remetendo para um som retro, ou mesmo para paisagens sinfónicas mais modernas, como já haviam feito os Änglagård. Com dez canções acessíveis (incluindo mesmo algumas baladas), e melodias vocais de sensibilidade pop, os Not A Good Sign conseguem uma interessante síntese de som clássico e moderno, entre complexidade e simplicidade.

Crítica: “Wolflight” – Steve Hackett

Wolflight

Wolflight
Artista: Steve Hackett
Data: Março, 2015
Editora: Inside Out

Steve Hackett está de volta, depois de dois anos e tal a promover a sua revisita ao mundo Genesis. Sendo o ex-membro da banda que parece mais orgulhoso do que para trás ficou (e a única hipótese de ouvirmos hoje em dia Genesis ao vivo tocado por um dos seus elementos), nem por isso descura a sua obra a solo. De facto Hackett conta já com 20 álbuns de originais (incluindo dois de guitarra clássica, e dois para guitarra e orquestra) dois de reinterpretações de Genesis, dois de versões de música clássica, dois álbuns em grupos paralelos e inúmeras colaborações com outros artistas, para além de uma muito intensa actividade ao vivo.
 
“Wolflight”, a sua nova criação, não é o prog dos seus álbuns dos anos 70, nem uma tentativa de entrar num rock mais mainstream como fez nos anos 80, nem uma experiência com blues, world music ou guitarra clássica como fez nos anos 90. É sim um álbum que vem na continuação dos seus mais recentes, uma síntese de influências para criar canções descomprometidas, que funcionam como pequenas bandas sonoras (veja-se “Wolflight” e “Love Song to a Vampire” cujas atmosferas resultaram em vídeos bem sugestivos). Nelas a guitarra é rainha, com Hackett a mostrar porque cada álbum seu é quase uma workshop desse instrumento, tal a diversidade de técnicas e efeitos que emprega, na busca da tonalidade e atmosfera certa. O que fica é um conjunto de paisagens sonoras ricas em detalhe e diversidade (onde não falta o toque oriental em “Corcyran Fire”, ou o classicismo de “Earthshine”), que Hackett canta com a sua voz que, não sendo um prodígio, aprendeu a trabalhar com dobragens e reverberações, que lhe dão um efeito de eco, como compete a um contador de histórias arrepiantes e nostálgicas. Com harmonias vocais arrojadas e uma guitarra que parece uma orquestra, Hackett transporta-nos para um mundo fantasioso cujo tema é dos direitos e liberdades humanas (o tal lado selvagem de que os lobos são metáfora), da América às areia do Sahara, da mitologia grega ao leste pós-comunista, sem esquecer as relações românticas.

Crítica: “Hand. Cannot. Erase” – Steven Wilson

Hand. Cannot. Erase

Hand. Cannot. Erase.
Artista: Steven Wilson
Data: Fevereiro, 2015
Editora: Kscope

Steven Wilson, o hiperactivo líder dos Porcupine Tree (e criador de No-man, Blackfield, Storm Corrosion…), produtor e misturador mais procurado do cenário do progressivo actual, traz-nos com “Hand. Cannot. Erase.” o seu quarto álbum de originais a solo. Amante da ideia de álbuns conceptuais, Wilson inspirou-se no caso verídico de uma jovem mulher encontrada morta em casa, após três anos sem que amigos ou família se tivessem lembrado de a procurar.
 
“Hand. Cannot. Erase.” é uma espécie de vizinho do universo sonoro dos Porcupine Tree, embora mais simples, mas nem por isso menos atractivo. Wilson usa o seu som duro de guitarra, ritmos sincopados e envolventes harmonias vocais, com temas que vão do minimal ao sinfónico, do delicado acústico ao agressivo e dissonante, passando por algum flirt com a electrónica. O resultado é um álbum bem mais simples que o seu anterior trabalho a solo, em onze temas tendencialmente curtos (incluindo dois pequenos instrumentais), onde predomina a riqueza da composição.
 
Como acontecera antes, Steven Wilson toca um grande número de instrumentos, contando ainda com uma banda formada por Guthrie Govan (guitarra), Marco Minnemann (bateria), Nick Beggs (baixo) e Adam Holzman (teclas) para além de outros músicos convidados.