Category Archives: 2017

Crítica: “On Her Journey to the Sun” – Rikard Sjöblöm

On Her Journey to the Sun

On Her Journey to the Sun
Artista: Rikard Sjöblöm
Data: Maio, 2017
Editora: InsideOut Music

Terminada a carreira dos Beardfish, o seu líder, o multi-instrumentista sueco Rikard Sjöblom, voltou a ressuscitar o seu anterior projecto Gungfly, seis anos depois do anterior Lamentations (Progress Records, 2011). Agora mudando para Rikard Sjöblom’s Gungly, dando mais reconhecimento ao nome do músico que, como se não bastasse, é também membro dos bem-sucedidos Big Big Train, chega-nos On Her Journey to the Sun.
 
E é na veia sinfónica das bandas citadas, de sons cheios e instrumentais contrapontísticos que evocam os clássicos dos anos 70, que se move este On Her Journey to the Sun. Logo desde o rendilhado inicial de guitarras acústicas em «Of the Orb» até à referência a um tal Cinema Show, nos transporta para 1973 e, seja nas guitarras gémeas e camadas de sintetizadores, ou em «My Hero», que lembra Yes, Sjöblom transporta-nos por caminho cujo ponto de partida conhecemos. Mas o álbum não se faz apenas de homenagens, e Rikard Sjöblom desenvolve a música e ritmo que vinha marcando a carreira dos Beardfish, com influências jazz («Polyximia»), baladas ao piano («Over My Eyes») e o seu sentido rítmico e melódico sempre desafiante, como é o caso do longo «The River of Sadness».
 
Com rédea solta, respondendo apenas a si próprio, Rikard Sjöblom mostra que tem ideias e capacidade para as executar, para poder desbravar caminho com álbuns tão acessíveis quanto refrescantes no campo do rock sinfónico.

Anúncios

Crítica: “The Big Dream” – Lonely Robot

The Big Dream

The Big Dream
Artista: Lonely Robot
Data: Abril, 2017
Editora: InsideOut Music

Lonely Robot é o nome pelo qual responde agora o guitarrista John Mitchell, conhecido pelo seu trabalho nos Arena (onde milita desde 1997), e também presente nos projectos Kino (com Pete Trewavas, dos Marillion), It Bites, Frost* (para além de músico de estúdio, e ao vivo, de outros nomes). Na sua presente encarnação, que segundo o próprio, nasce do seu amor por filmes de ficção científica e as bandas sonoras atmosféricas que os acompanham, Mitchell dá-nos o segundo álbum de originais Forever Comes to an End, que parece estar a atrir mais atenções que o seu precedente Please Come Home (InsideOut Music, 2015).
 
Mitchell, que toca quase todos os instrumentos, à excepção da bateria (Craig Blundell, dos Frost*), não disfarça a sua matriz rock, dado a power chords e refrões épicos, a puxar ao hino facilmente cantável, como nos temas «Sigma» ou «In Floral Green», ao rock rápido de «Symbolic», e principalmente ao épico mais complexo, o tema-título de veia progressiva sinfónica, com solos espaciais.
 
Há ainda espaço para a inovação, como os subtis instrumentais «Prologue» e «Epilogue», mais perto da new age que do rock, mas há sempre uma familiaridade com um som já conhecido, e que se pode qualificar como o neoprog dos Arena, em temas mais simples e sem a pompa de Clive Nolan, mas que não chegam a entusiasmar.

Crítica: “Forever Comes to an End” – Bjørn Riis

Forever Comes to an End

Forever Comes to an End
Artista: Bjørn Riis
Data: Maio, 2017
Editora: Karisma Records

Para além de se tornar conhecido como o líder (compositor, guitarrista e vocalista) dos Airbag, o norueguês Bjørn Riis tem ainda uma carreira a solo. É nesse registo que Riis nos deu o seu recentemente editado segundo álbum, Forever Comes to an End, que se sucede a Lullabies in a Car Crash (Karisma Records, 2014).
 
Com sete temas, vários dos quais instrumentais («Absence», «Getaway», «Calm»), Riis, relembra os caminhos dos Airbag, num som compatível com o da banda, mas aqui com mais espaço para respirar. As influências mantêm-se, de Anathema (note-se o arranque inicial no tema-título, com a voz etérea de Riis a contrastar, e o tema final «Where Are You Now») a Steve Wilson (pelo tom melancólico), com guitarras que vão de ataques violentos a solos lânguidos, evocativos de Steve Rothery (Marillion) ou David Gilmour (Pink Floyd). Exemplo é o rendilhado de guitarras de «The Waves», e o cinemático e floydiano «Winter», onde Riis se coloca a par dos seus ídolos. Destacando-se ainda o piano de «Calm», um dos temas mais atmosféricos de Forever Comes to an End e exemplo da maior diversidade que Riis inclui no seu trabalho a solo.
 
No seu conjunto, Forever Comes to an End, é uma excelente amostra do trabalho do compositor e guitarrista, agradando certamente a todos os que se identificam com o tipo de som das influências que Riis se propõe seguir.

Crítica: “The String Quartets” – Jethro Tull

The String Quartets

The String Quartets
Artista: Jethro Tull
Data: Março, 2017
Editora: BMG

Não é a primeira vez que Ian Anderson revisita a obra dos Jethro Tull com ensembles de formação clássica. Desta vez fê-lo com o Carducci String Quartet, o qual adapta, com orquestrações de John O’Hara, obras de vários álbuns da banda. Na verdade o nome The String Quartets. É enganador, já que boa parte dos temas são para quinteto, considerando que Ian Anderson participa neles, quer em flauta, guitarra acústica, bandolim, ou mesmo voz.
 
O resultado é uma homenagem bem construída ao legado dos Jethro Tull, onde os arranjos são sempre de bom gosto, não se limitando a acompanhamentos deslavados da melodia de voz, como tantas vezes acontece em casos similares. Ao invés, sentimos que temos um verdadeiro quarteto de cordas (ou quinteto, como já dito), com partes cuidadas para cada instrumento, e onde o sabor barroco é o mais presente no conjunto das doze composições. Dispensável seria a voz de Ian Anderson, tanto porque lhe falta já o vigor de outros anos, como porque a sua inclusão é um contrassenso para com o objectivo do álbum.
 
Não sendo um álbum rock (longe disso), The String Quartets é uma forma delicada e original de (re)conhecermos a música dos Jethro Tull, que os fãs de mente mais aberta irão certamente apreciar.

Crítica: “We Are Legend” – Magenta

Crítica: “We Are Legend” – Magenta
We Are Legend

We Are Legend
Artista: Magenta
Data: Abril, 2017
Editora: Tigermoth Productions

We Are Legend é o sétimo álbum de originais dos galeses Magenta, banda fundada por Rob Reed e Christina Booth, que não gravava há quatro anos, período durante o qual a vocalista Booth editou o seu segundo álbum a solo The Light (Tigermoth Productions, 2015), e o teclista e guitarrista Reed editou Sanctuary (Tigermoth Productions, 2014) e o álbum em colaboração Belerion (Tigermoth Productions, 2016). De volta está o som elaborado que tem nos rendilhados e harmonias vocais dos Yes e texturas dos Genesis as suas influências principais, numa matriz mais acessível, com algumas guitarradas de Chris Fry a lembrar Steve Rothery (Marillion) ou David Gilmour.
 
Com apenas três temas (o primeiro de 26 minutos), We Are Legend reafirma a música dos Magenta, entre o sinfonismo e o neoprog, polindo ao invés de inovar. As influências são as mesmas e estão à vista, numa composição sempre escorreita, em temas que evoluem sem esforço, com os Pink Floyd a denunciarem-se, por exemplo, nos ribombares de bateria a meio de «Trojan» (o tema inicial) evocativos de «Time», e uma secção quase tirada a papel químico de «Wish You Were Here», em «Colours» (o segundo tema).
 
Mas o que marca o som dos Magenta é sem dúvida a capacidade de Christina Booth guiar os temas com a sua vocalização dinâmica e tonalidade poética, sendo quase que uma espécie de Jon Anderson no feminino, e contraponto perfeito para a composição e tapeçaria de teclados de Rob Reed. Uma coisa é certa, mesmo sem inovar e deixando-nos muitos déjà vu auditivos, depois de dois ou três álbuns menos inspirados, os Magenta estão de volta à sua melhor forma.

Crítica: “Smells Like Aranis” – Aranis

Smells Like Aranis

Smells Like Aranis
Artista: Aranis
Data: Janeiro, 2017
Editora: Homerecords.be

Aranis é o nome de um invulgar ensemble provindo da Bélgica, e liderado por Joris Vanvinckenroye, que usa essencialmente instrumentos clássicos (violino, piano, flauta, contrabaixo, etc.) para criar um som que tem raízes na música de câmara do século XX, em particular no chamado neoclassicismo, que depois mesclam com influências rock, que ajudam a criar uma espécie de rock de câmara. Não espanta, por isso, que o grupo se mova na esfera RIO (Rock in Opposition), onde tem gravado álbuns em colaboração com músicos da área, como são os elementos dos Univers Zéro, Present e Thinking Plague, ou reinterpretando obras de compositores belgas contemporâneos como é o caso de Wim Mertens.
 
Já com seis álbuns de estúdio, além da dispersão noutras colaborações, os Aranis editaram em 2017 o álbum Smells Like Aranis, dedicado à música dos Nirvana. A escolha é pouco óbvia, e o resultado é, no mínimo, curioso. Com uma roupagem de instrumentos clássicos, passando pelas influências neoclássicas, e não renegando alguma dissonância, Smells Like Aranis, traz-nos alguns temas fundamentais da banda de Seattle, a que junta ainda alguns originais (todos intitulados SLA), no som próprio dos Aranis onde a energia eléctrica é substituída pela irreverência dos arranjos.
 
Smells Like Aranis, não será, talvez a forma mais representativa de a banda se dar a conhecer, mas, por outro lado, para o não iniciado, é uma boa forma de se partir de melodias conhecidas e se deixar contagiar pelos arranjos e sons que o grupo de Vanvinckenroye nos propõe. Falta depois dar o salto, e reencontrar os verdadeiros Aranis nas suas obras mais inspiradas, como o são os álbuns Aranis II (Edição de autor, 2007) ou, também no campo das covers, Made in Belgium (Homerecords.be, 2012).

Crítica: “Colours Not Found in Nature” – Isildurs Bane & Steve Hogarth

Colours Not Found in Nature

Colours Not Found in Nature
Artista: Isildurs Bane & Steve Hogarth
Data: Abril, 2017
Editora: Ataraxia

Em actividade desde metade da década de 1970, os Isildurs Bane são um agrupamento sueco com uma forma peculiar de trabalhar. Deixando passar cada vez mais tempo entre álbuns, a banda privilegia a originalidade das suas construções musicais, para o que procura inspiração na colaboração com músicos externos, o que acontece, por exemplo nas suas IB Expo Academy, encontros e workshops de músicos dedicados a explorar afinidades musicais através de composição e improvisação em palco.
 
Cliente anterior da IB Expo é Steve Hogarth, o vocalista dos Marillion, que empresta a sua voz (e composição) a este Colours Not Found in Nature, o primeiro álbum dos Isildurs Bane desde o longínquo CD Mind Vol. 4 – Pass (Ataraxia, 2003) e o DVD MIND Volume 5 – The Observatory (Ataraxia, 2005). O resultado é aquilo que se poderia prever, as melodias sensíveis de Steve Hogarth, em letras emotivas e uma expressividade que lembra os seus trabalhos a solo, aqui acompanhado pelo som delicadamente orquestral dos Isildurs Bane.
 
Há algo de Marillion neste trabalho, e os seus fãs não deixarão de encontrar semelhanças, sobretudo a nível das melodias vocais, uma vez que Hogarth é um vocalista com uma expressão bem vincada. Mas há sobretudo muito de Isildurs Bane, na sua riqueza tímbrica, atenção ao detalhe, arranjos sempre em doses cuidadas, e grande sentido melódico, do mais orquestral ao mais delicado, sempre com paixão e expressividade. Como que uma viagem sentimental por atmosferas que não nos são de todo desconhecidas, Colours Not Found in Nature junta o melhor de dois mundos, num resultado refrescante e envolvente.

Crítica: “Remedies” – Soup

Remedies

Remedies
Artista: Soup
Data: Abril, 2017
Editora: Crispin Glover Records

Um dos segredos mais bem escondidos da música actual será a banda norueguesa Soup. Criação do compositor e teclista Erlend Viken, os Soup começaram como projecto de estúdio a solo, que depois de dois álbuns, Come On Pioneers (Edição de autor, 2006) e o duplo Children Of E.L.B. (Edição de autor, 2010), se converteu numa banda verdadeira, com actividade ao vivo. Foi já nessa altura que surgiu o magnífico The Beauty of Our Youth (Aspén, 2013), a que se segue agora Remedies (Crispin Glover Records, 2017), de uma banda composta por Erlend Viken (voz, teclados e samples), Sverre Leraand (bateria), Rune Leraand (baixo) e Orjan Lunde (guitarra).
 
Fiéis ao som melancólico-obsessivo que vêm desenvolvendo, os Soup continuam a trilhar um caminho em que lhes são apontadas como influências bandas como Anathema, Sigur Ros, Mogwai e Steven Wilson. É um som que parte de melodias frágeis para se tornar intenso com uma barreira de som feita de guitarras distorcidas que não envergonharia os Muse, e aqui até um órgão de igreja. Com apenas cinco temas, Remedies é, pela sua curta duração (apenas 41 minutos) essencialmente uma amostra do caminho percorrido pelos Soup, e um aperitivo para a sua obra, passada… e, porque não, futura.

Crítica: “Grimspound” – Big Big Train

Grimspound

Grimspound
Artista: Big Big Train
Data: Abril, 2017
Editoras: Electric English / Giant Electric Pea

Os Big Big Train são já um caso sério no rock sinfónico actual, sobretudo depois de em 2009 estabilizarem o seu elenco com a entrada do vocalista e multi-instrumentista David Longdon, do baterista Nick D’Virgilio (ex-Spock’s Beard) e do guitarrista Dave Gregory (ex-XTC, e ocasional colaborador de Steve Hogarth e de Porcupine Tree), que se juntaram aos fundadores Andy Poole (guitarra e teclados) e Greg Spawton (baixo). No sentido de diversificar o seu sinfonismo e riqueza tímbrica, a banda acrescentou também recentemente Rikard Sjöblom (guitarras e teclados), Rachell Hall (violino, viola e violoncelo) e Danny Manners (teclados e contrabaixo).
 
Foi este ensemble o mesmo que nos dera Folklore (English Electric, 2016), que gravou Grimspound, mostrando como a banda está numa fase muito activa em termos de produção e qualidade musical. É hoje fácil identificar um som Big Big Train, seja pela voz quente e rouca de David Longdon, pelo constante sinfonismo de som cheio, ou pelo incluir de elementos folk numa sonoridade que tem em Genesis (na sua faceta mais melancólica) as suas principais influências (ouça-se o mellotron ou os rendilhados de guitarras acústicas e as notas de flauta). O resultado é mais um conjunto de bons temas, facilmente cantáveis, e com espaço para o virtuosismo dos músicos, em construções que confirmam as suas influências, mas sempre com aquela melancolia inglesa de raiz folk que os caracteriza, confirmada, por exemplo, na voz de Judy Dyble (ex-Fairport Convention) no tema «The Ivy Gate». O destaque vai para o monumental tema de entrada «Brave Captain» e o longo e diversificado «A Mead Hall in Winter», que contrastam com o subtil «Meadowlands», de sensibilidade acústica, e um tributo à memória de John Wetton e o instrumental de sonoridade jazz «On The Racing Line».
 
Grimspound é um digno sucessor de Folklore, de que esteve para ser quase que um EP de acompanhamento, já que vários dos seus temas resultaram das sessões de gravação do álbum de 2016. Não surpreende, é certo, e talvez não traga nada acima dos trabalhos anteriores, mas é mais um conjunto de bons temas que entram para o enorme leque com que os Big Big Train vão presenteando os amantes do rock sinfónico.

Crítica: “Detachment” – Barock Project

Detachment

Detachment
Artista: Barock Project
Data: Março, 2017
Editora: Artalia

Foi já em 2007 que os Barock Project se estrearam nos discos, contando com cinco álbuns de estúdio, dos quais, o mais recente, Detachment, foi editado em Março deste ano. Provindos da Itália, um país célebre pela sua propensão para o rock progressivo, os Barock Project fogem um pouco à veia mais lírica a que habitualmente se associa o rock progressivo italiano, estando mais próximos do chamado neoprog. Com um alinhamento variável, que tem em Luca Zabbini (voz, teclas e guitarras) o seu mentor e principal compositor, aqui secundado por Francesco Caliendo (baixo), Marco Mazzuoccolo (guitarra) e Eric Ombelli (bateria), Os Barock Project nasceram da ideia de pegar em estruturas clássicas (nomeadamente a música barroca), dando-lhes o ritmo rock, com arranjos elaborados.
 
Se a receita tem atraído fãs, Detachment não é uma decepção, antes pelo contrário, é um passo no amadurecimento de uma banda que tem já um som bastante distinto. Com estruturas dinâmicas, sobre melodias pop bem acessíveis, o som da banda caracteriza-se por uma enorme limpidez, mercê do uso extensivo do piano clássico (mesmo em solos energéticos), acompanhamentos de guitarra acústica e secções de cordas, sobre a matriz rock, onde se destaca a guitarra acutilante de Marco Mazzuoccolo. A sua marca são os temas longos, onde se muda sempre de ritmo e tom, passando-se de baladas emotivas, para um crescendo de musicalidade, e empolgantes passagens instrumentais, com todos os ingredientes da banda a entrar, num misto de virtuosismo e alegria.
 
Destaques são, por isso, «Happy to See You», «One Day, «Broken», e «Twenty Years», todos eles mostrando o grande leque de tonalidades sonoras, do acústico ao eléctrico, do pop ao sinfónico, a que juntam baladas como «Alone», esta cantada pelo convidado Peter Jones (Tiger Moth Tales e Camel), que também empresta a sua voz ao excelente «Broken». Mesmo que com um som que por vezes pode soar a comercial, os Barock Project conseguem contagiar pela sua alegria. Afinal, desde quando é que a simplicidade é um crime? Usá-la com criatividade, homenageando os clássicos, e soando bem, é um mérito ao alcance de poucos. Os Barock Project de Luca Zabbini conseguem-no neste surpreendente Detachment.