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Pendragon – “Queen of Hearts”

Título: Queen of Hearts: a) Queen Of Hearts b) … A Man Could Die Out Here… c) The Last Waltz (21’35”)
Artista: Pendragon
Álbum: The World (1991)
Autores: Nick Barrett / Nick Barrett, Clive Nolan e Peter Gee em “The Last Waltz”

Em 1978, quando muitos acreditavam que o rock progressivo havia morrido, surgiam na Inglaterra os Zeus Pendragon (que rapidamente perderiam a primeira palavra do nome), liderados pelo guitarrista e vocalista Nick Barrett, e apostados em tocar um rock ambicioso, seguindo os seus heróis Jimi Hendrix, Led Zeppelin, Fleetwood Mac e Santana.
 
Seguiram-se sucessivas mudanças de elenco, e a escrita do primeiro material original, já com veia progressiva, inspirada em mestres dos anos 70, como Camel e Pink Floyd. Foi com um alinhamento estabilizado em torno de Nick Barrett (voz e guitarra), John “Barney” Barnfield (teclas), Pete Gee (baixo) e Nigel Harris (bateria) que em 1982 os Pendragon se fizeram à estrada, em parte graças à sua amizade com outras bandas do circuito, como os Marillion, com quem partilharam muitos palcos.
 
Os anos seguintes trouxeram um primeiro EP (“Fly High, Fall Far”, 1984) um álbum de estúdio (The Jewel, 1985) e um ao vivo (9:15 Live, 1986). Era a época alta do chamado neoprog, mas ao contrário dos Marillion, os Pendragon não conseguiam chegar ao mainstream, o que acarretou mais trocas de teclistas, e a tentativa de um álbum pop (Kowtow, 1988).
 
Em 1991, já com Clive Nolan nas teclas, e Fudge Smith na bateria, os Pendragon encontravam o seu caminho. Nick Barrett fundava a Toff Records, e a partir daí seria mais fácil serem fiéis à sua musa, o que ficou demonstrado desde logo com “The World”, um álbum mais maduro, com espaço para atmosferas floydianas, solos de guitarra, paisagens brilhantes de teclados, e temas longos, muito elaborados. É deste álbum que se destaca “Queen of Hearts”, um tema com uma construção característica dos Pendragon, e que de certo modo cristaliza o mais clássico neo-prog dos anos 80/90.

Pendragon em 1991

Pendragon em 1991: Nick Barrett, Fudge Smith, Clive Nolan e Pete Gee

Dividido em três partes (“Queen of Hearts / … A Man Could Die Out Here… / The Last Waltz”) o tema desenvolve-se lentamente, começando com piano minimalista, e guitarra acústica, com passagens subtis sobre as quais canta a voz sofredora de Nick Barrett, para aos poucos surgirem outros elementos, as frases de guitarra eléctrica, e a atmosfera floydiana. Após um lânguido solo de guitarra, o tema progride para modos mais enérgicos, sobretudo na segunda parte, feita de repetidas passagens instrumentais, e momentos quase declamados. Tudo termina numa terceira parte que é quase um hino à Pendragon, cheio, emotivo e sinfónico, deixando para trás as subtilezas anteriores.
 
Liricamente fala-se da inocência de um amor apenas acabado de nascer (“a new love born, together they’re gonna change the world”), e do trajecto óbvio que se segue (“And then came doubt, then came the fears”). Incertezas e esperanças são cantadas com um pé na mitologia, como sempre Barrett a deixar que a fantasia o inspire, como o título “Queen of Hearts” sugere, tanto alusão à malvada rainha de copas de “Alice no País das Maravilhas”, como mais literalmente “rainha de corações”… “A princess of magic in his eyes”, numa inevitabilidade de separação (“Like two running streams that never can touch”). O segundo acto dá-nos um narrador desiludido com o seu mundo, em momento de contemplação pessimista, para tudo se mudar no terceiro com uma voz de esperança (“So you can find your way, I’ll leave a gaslight burning in the window”), como um crescimento completado que leva a recuperar a paz com o passado e o aceitar do que é importante na vida, mesmo se tal já nunca voltará (“The boy just trying to throw some magic down upon the world / But you can’t dance forever, the last waltz is over / And most of all as I recall the final line upon her lips”).
 
Na sua habitual poesia de inspiração mitológica, quase como um conto de fadas adulto, “Queen of Hearts” mostra toda a capacidade e eloquência melódica da banda, de harmonias sinfónicas e rasgados solos, mostrando que em 1991 os Pendragon ainda se recusavam a crescer para além das suas ilusões de infância, como o Peter Pan que ilustra tantas das suas capas.
 
Quem tiver essa criança ainda viva dentro de si, sabe que ela se descobre com fantasia… e tempo.